Realização: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Vozes: Chiara Mastroiani, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian e Gabrielle Lopes
Duração:
Exemplo de como o cinema de animação pode tratar de temas da maior seriedade, Persépolis assume-se, tanto ao nível estético como no que ao conteúdo diz respeito, como uma poderosa obra, verdadeira poesia animada, como disse M. Cintra Ferreira no Expresso. Nomeado para os Óscares 2008, é uma história simples contada de forma simples. Como na banda desenhada de Marjane Satrapi, em que é baseado, o filme dirigido pela própria Satrapi e Vincent Paronnaud consiste essencialmente numa série de desenhos em preto e branco, de grossas linhas negras preenchidas por nuances de cinza, numa estética muito simples despojada da parafernália de efeitos especiais que habitualmente encontramos nos filmes de animação.
A partir da experiência de vida de Marjane, apresenta-se uma história de amor de uma jovem pelo seu país, no qual, contudo, se sente abafada pelo jugo dos preceitos ditatoriais que aí vigoram. Tendo o Irão e as transformações políticas e sociais que tiveram lugar desde a destituição do Xá como pano de fundo, somos confrontados com um quadro, tantas vezes repetido ao longo da história e em diversas latitudes, em que a euforia popular, pós libertação da ditadura, dá lugar a sistemas de governo, por vezes, ainda mais repressivos. Marjane, porque os seus pais não consideravam aquela circunstância ideal para o seu crescimento e formação, é enviada para a Áustria, experiência essa que se revela mais tormentosa do que seria de esperar, o que vai fazendo crescer um sentimento de desencanto e a necessidade de regresso ao colo familiar apesar da repressão social e política que sabe ir encontrar. O desejo de liberdade bate, como que numa parede, no ambiente claustrofóbico que o fundamentalismo ditatorial tinha implementado. A protagonista é naturalmente rebelde, assumindo a liberdade como um direito inalienável. Para isso muito contribuiu a sua avó, fonte de humor e de orientação moral para Marjane e ao mesmo tempo encarnação de um feminismo contido que perpassa pelo filme.
Várias são as mensagens éticas que nos são apresentadas, das quais destaco a afirmação de que todos temos escolha e, como tal, somos intrinsecamente livres, mesmo quando a circunstância nos quer privar dessa liberdade.
M. Romano