terça-feira, 24 de março de 2009

O Delfim

Baseado na obra homónima de José Cardoso Pires, este
filme cumpre uma árdua tarefa que é a de passar para
linguagem cinematográfica uma obra que, pelas suas
características, nomeadamente as longas meditações e
outras viagens interiores, torna esse objectivo bem difícil.
Em toda a história há um drama pessoal, que, dada a
altura em que foi escrito o livro que dá lastro ao filme,
pode ser entendido como metáfora do desabar de todo
um mundo fechado, autoritário e hipócrita como era o
Portugal do tempo da ditadura. A lagoa e família Palma
Bravo aparecem, aos olhos das pessoas, como tendo a
mesma história, a mesma constância, como uma
inevitabilidade que, apesar disso, se está a destruir por
dentro, até se enterrar na tragédia (tal como o regime
político que mal se aguentava, depois de Oliveira Salazar
ter entrado em agonia). Tomás da Palma Bravo é a alma
negra que corporiza o que de mais odioso se reconhece
na afirmação do autoritarismo e na desclassificação dos
semelhantes. Tanto doma cães como servos, homens e
mulheres, pelo prazer da autoridade, pelo desejo de tudo
subjugar.
Por toda a obra grassa um sentimento de solidão e de
tragédia que se vai tornando cada vez mais presente. É
neste contexto que a personagem de Maria das Mercês
(Alexandra Lencastre) se me afigura como nuclear.
Mulher subjugada e rendida, de desejo sempre por
satisfazer, é como que o barómetro do crescimento da
tensão que desde o início se manifesta.
Pejado de simbologias de que o realizador se socorre,
destaco uma cena, logo no início do filme, em que um
lagarto espreita as pessoas que saem da igreja, numa
alusão/tornar presente do mal que, sob um manto de
piedade e contenção, se esconde.
Realização:
Fernando Lopes
Com:
Rogério Samora
Alexandra Lencastre
Rui Morisson
Miguel Guilherme
Milton Lopes

Crtica: Prof. Manuel Romano

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