José Saramago
Romance
A actualidade da nossa época parece convidar-nos a ler ou a reler esta obra de Saramago, dada ao prelo no ano em que Portugal entrava para a União Europeia.
Mais uma vez assistimos ao processo de montagem de uma alegoria que tem como cerne o questionamento sobre a pertinência da adesão dos países ibéricos à Europa comunitária. Os protagonistas mais não fazem do que agenciar simbolicamente a separação da Península pela linha fronteiriça dos Pirinéus, pondo à deriva, no oceano, a “jangada de pedra”.
Pedro Orce, José Anaíço, Maria Guavaira e Joana Carda aos quais se junta o cão C erbere e, m ais tarde, Joaquim Sassa e o burro Platero, celebram o maravilhoso, mais uma vez presente nesta obra, tal como acontece em tantas outras de Saramago.
As personagens viverão histórias de companheirismo e solidariedade, mas também de amor e amizade a que não são alheios os factos transcendentais que os unem: seguir um cão ou ser seguido por um bando de estorninhos, riscar o chão com uma vara de negrilho ou desfazer uma meia de lã azul, atirar ao mar uma pesada pedra ou sentir o chão tremer debaixo dos pés, tais são os factos que, por mais incompreensíveis que se afigurem, arrastam as personagens para uma demanda insólita.
Separada do resto da Europa, a Península Ibérica voga no oceano, aproximando-se perigosamente dos Açores que faria submergir com toda a sua população, caso não fosse afastar-se subitamente, como que por milagre, em direcção ao continente americano. A “jangada de pedra” parece procurar o seu rumo. Imobilizar-se-á algures entre o continente africano e a América do Sul. Esse facto coincidirá com outro, não menos extraordinário, o de todas as mulheres se declararem “grávidas”. Talvez os filhos sejam os marinheiros desse outro barco de pedra que Pedro Orce encontrou na praia, com a popa virada ao mar. Talvez haja uma epopeia de sentido contrário, a escrever! Será esse um dos possíveis sentidos deste romance?
Graça Viana Reis
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Graça
ResponderEliminarDepois de ler esta extraordinária análise fiquei com vontade de reler " A Jangada de Pedra". Parabéns pelo belíssimo comentário.