terça-feira, 26 de maio de 2009

Uma história simples

Uma história simples

Realização: David Linch
Com: Richard Farnsworth e Sissy Spacek
Duração: 113m
Ano: 1999
Baseado numa história da vida real, que aconteceu com pessoas reais, Uma História Simples relata a demanda de uma relação interrompida por parte de um simpático idoso de 73 anos. Quando, por força da idade, os alarmes da decadência física se manifestam, um desejo vai ganhando forma na mente desse idoso: reencontrar o irmão, com quem há muito está desavindo. Desejo esse tornado ainda mais urgente por algo que aconteceu ao seu irmão…Com uma determinação que contraria a sua fragilidade física, vai engendrar uma bem pouco provável forma de se transportar ao longo da viagem. Viagem esta que, ao sentir que tem que a fazer e que tem que a fazer sozinho, vai constituir, também, uma catarse de velhos demónios, vindos de um passado que não deixa de o assombrar, e de reencontro consigo mesmo, qual espaço de síntese do que é importante na vida. Nesse sentido, este filme é um poema feito imagem, de que a banda sonora é a moldura perfeita, e a prova de que, por vezes, a normalidade pode ser a mais fantástica das coisas.
Passando-se no coração da América rural, somos confrontados com um retrato idílico, onde a bondade e amabilidade das pessoas é uma constante, o que não deixa de ser estranho relativamente à linha habitual dos filmes de David Linch e aos personagens que habitualmente privilegia.
Por último, deixem-me sublinhar a fabulosa interpretação de Richard Farnsworth, ele próprio quase octogenário, no papel do protagonista Alvin Straight.
M. Romano

sexta-feira, 22 de maio de 2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A JANGADA DE PEDRA (1986)

José Saramago

Romance

A actualidade da nossa época parece convidar-nos a ler ou a reler esta obra de Saramago, dada ao prelo no ano em que Portugal entrava para a União Europeia.
Mais uma vez assistimos ao processo de montagem de uma alegoria que tem como cerne o questionamento sobre a pertinência da adesão dos países ibéricos à Europa comunitária. Os protagonistas mais não fazem do que agenciar simbolicamente a separação da Península pela linha fronteiriça dos Pirinéus, pondo à deriva, no oceano, a “jangada de pedra”.
Pedro Orce, José Anaíço, Maria Guavaira e Joana Carda aos quais se junta o cão C erbere e, m ais tarde, Joaquim Sassa e o burro Platero, celebram o maravilhoso, mais uma vez presente nesta obra, tal como acontece em tantas outras de Saramago.
As personagens viverão histórias de companheirismo e solidariedade, mas também de amor e amizade a que não são alheios os factos transcendentais que os unem: seguir um cão ou ser seguido por um bando de estorninhos, riscar o chão com uma vara de negrilho ou desfazer uma meia de lã azul, atirar ao mar uma pesada pedra ou sentir o chão tremer debaixo dos pés, tais são os factos que, por mais incompreensíveis que se afigurem, arrastam as personagens para uma demanda insólita.
Separada do resto da Europa, a Península Ibérica voga no oceano, aproximando-se perigosamente dos Açores que faria submergir com toda a sua população, caso não fosse afastar-se subitamente, como que por milagre, em direcção ao continente americano. A “jangada de pedra” parece procurar o seu rumo. Imobilizar-se-á algures entre o continente africano e a América do Sul. Esse facto coincidirá com outro, não menos extraordinário, o de todas as mulheres se declararem “grávidas”. Talvez os filhos sejam os marinheiros desse outro barco de pedra que Pedro Orce encontrou na praia, com a popa virada ao mar. Talvez haja uma epopeia de sentido contrário, a escrever! Será esse um dos possíveis sentidos deste romance?

Graça Viana Reis